Dia#28 | Caminho Francês

Dia#28
Distância: 30,3km
Tempo de caminhada: 8 horas
Clima: Névoa / Sol
Temperatura: Mín: 7° / Máx: 24
Saída: Melida
Chegada: Santa Irene
Data: 04/10/2017
Palavra do Dia: Respeito

Acordei. Olhei para o lado. Meu amigo brasileiro (Raphael) que saiu às 18:00 pra ir no mercado ontem, não voltou mais. Estava preocupada. Já era de manhã. Todas as suas coisas estavam no albergue. Mandei uma mensagem pro celular dele. Avisei para onde eu estava indo e disse para qualquer coisa, entrar em contato comigo. Me arrumei. Comi um iogurte e uma banana e comecei a caminhar. Eram 6:00. Ainda estava escuro. Olhei para o céu. A lua estava linda. Cheia. Amarela. Como o sol. Quanto mais ela descia. Mais alaranjada ela ficava. Parecia uma bola de fogo quando alcançou o horizonte. O nevoeiro deixava a paisagem bucólica. Passei por algumas árvores e a lua ficou entre elas. Parecia uma moldura. Tirei uma foto. Nunca havia visto a lua desse jeito. Ela se foi. Deu lugar ao sol. Clareou. Encontrei uma placa que apontava para um “Rio”. Lembrei da minha cidade. Passei por uma simpática e simples mesa de café da manhã. Podia-se comer o que quiser. Era só fazer alguma doação. Ao lado, tinha um banco de madeira antigo com uma almofada coberta por um pano. Era pra descansar. O carinho de como tudo é feito por aqui é comovente. Ser peregrino parece ser especial. Passei por um linda plantação. A paisagem ficou verde. O céu estava azul. Os pássaros cantavam. Avistei um peregrino alguns metros à minha frente caminhando ao lado de um cachorro. Não sei se era dele. Mas o cachorro o acompanhou por um bom tempo. Meus passos eram mais rápido. Desejei “Buen Camino” e segui em frente. Senti cheiro de flor no ar. Jasmim. Delicioso. Mais a frente, o cheiro de terra molhada. Sereno. Depois de caminhar 10km e parei pra comer. Encontrei o casal canadense que eu adoro. Sentei junto com eles. Comi o croissant que tinha na mochila e uma napolitana de chocolate. Recebi notícias do meu amigo brasileiro (Raphael). Ele mandou uma mensagem. Encontrou um amigo do caminho ontem. Ficaram conversando até tarde e perdeu a hora. Como nosso albergue já estava fechado, dormiu no albergue do amigo. Ufa! Que bom. Estava tudo bem. Segui em frente. Parei em um pequeno mercado para comprar coisas pro café de amanhã e um amendoim. Segui adiante. Em um vilarejo 5km adiante encontrei o “Muro da Sabedoria”. Várias perguntas sobre filosofia x religião coladas em uma espécie de varal que nos fazem refletir sobre nossos princípios e valores. Muito interessante. Li algumas. Pensei sobre questões da vida. Segue. O dia esquentou bem. Sempre esquenta muito após meio-dia. O sol fica chega no seu ápice e castiga os peregrinos. Prefiro acordar bem cedo por isso. Pego menos tempo de sol forte na cabeça. Hoje tive a sorte da caminhada ser bem mais tranquila do que nos dias anteriores. Apesar da longa distância, a maior parte do caminho era sob as árvores. Muita sombra. Super agradável. O vento que soprava as folhas também refrescava os peregrinos. Andei mais 5km e vi um curioso bar. Ele era todo ornamentado com garrafas de cerveja. Os peregrinos depois de beberem, escrevem seus nomes nas garrafas ou alguma mensagem e as deixam nos muros ou penduradas nas árvores. É uma forma de deixar um pedacinho deles por alí. Parei para descansar um pouquinho. Fui no toilet. Comi alguns amendoins e segui. Novamente sob as árvores. Faltavam mais 5km para meu destino final. O sol estava muito forte. Região seca. O vilarejo parecia não chegar nunca. Alcancei a marca de 25.7km para Santiago. Estava MUITO perto. Alguns quilômetros adiante, cheguei no vilarejo “Santa Irene”. Não era charmoso. Nem tinha muita coisa. Apenas o albergue municipal e um pequeno bar. Tinha vaga. Fiz check-in. Peguei minha cama. Tomei banho. Lavei minhas roupas. Coloquei pra secar. Fui no bar comer algo. A atendente não era muito simpática. Isso era difícil por aqui. Todos costumam estar sempre sorrindo. Sorri mesmo assim. Não tinha muita opção do que comer. Pedi uma torrada com manteiga e geléia. Continuei com fome. Peguei alguns amendoins que tinha na bolsa e terminei com um biscoito de chocolate. Fiquei satisfeita. Vi o peregrino que caminhava com seu cachorro alguns quilômetros atrás. O cachorro era realmente dele. Ainda estavam juntos. Fiquei com um pouco de dó. Será que eles haviam feito o Caminho todo? Acho bonita a amizade entre o homem e seu cão, mas um pouco desgastante pro animal. Suas patinhas devem ficar castigadas. Ainda bem que já estava quase no fim. Decidi voltar pro albergue. No caminho, ouvi uma música bonita. Parecia uma música de anjos. Me senti no céu. Senti paz. Havia uma pequena caixa de som com um CD tocando e um livro à venda. Se chamava “La Soledad Compartida” (A solidão compartilhada). Coincidentemente, na capa havia a silhueta de um homem e seu cachorro. Será que era do mesmo peregrino que eu havia acabado de ver? Ao lado dos livros, havia uma placa que dizia: “Às vezes, um simples momento de alegria é tudo que precisamos para lembrar o quanto somos afortunados”. Parei para refletir. Realmente a felicidade está nas coisas mais simples da vida. Cheguei no albergue. Tirei um cochilo. Recarreguei a energia. Fiz mais um pequeno lanche. Um amigo me ofereceu um pedaço do seu pão com húmus. Aceitei. Agradeci. Ele decidiu tomar uma cerveja. Voltamos pro bar. Fiz companhia. Conversamos sobre o final do caminho. Sensação estranha. Não queremos que acabe. Mas estamos felizes por termos chegado até aqui. Escureceu. O bar fechou. Voltamos pro albergue. Peguei minhas roupas no varal. Tomei banho. Vi um desenho muito legal no espelho do banheiro. Algum peregrino quis lembrar o espírito de coletividade que todos devem ter ao passar por aqui. Não lavar a roupa na pia do banheiro para que não acabe a água quente daqueles que estão tomando banho. Adorei. Registrei. Momento de reflexão. Devemos SEMPRE pensar no próximo. Em qualquer situação. Tudo que fazemos, atinge o outro. Façamos o bem. Sejamos bons. O mundo pode ser melhor. A mudança começa em nós. Fui pro quarto. Arrumei minhas coisas. Deitei. Agradeci. Dormi.

Lição do Dia: Respeite o próximo como a si mesmo.

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4 thoughts on “Dia#28 | Caminho Francês

  1. Muito legal sua mensagem, faz com que Deus venha nos mostrar que as coisas simples realmente é onde a felicidade habita.

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