Dia #35 | O dia seguinte após o Caminho

Dia#35

Acordei. Não era tão cedo. 7:00 AM. Me arrumei. Não precisei me preocupar se estava muito frio ou se tinha comida suficiente na mochila. Não precisei passar vaselina no pé antes de colocar a meia. Foi estranho. Isso já fazia parte da minha rotina. Minha peregrinação havia acabado. Hoje eu estava voltando à vida real. Sensação estranha. Fiquei pronta. Desci pra tomar café. Comi dois mini croissants com queijo e duas mini napolitanas de chocolate. Me despedi do hospitaleiro. Ele pediu pra tirar uma foto minha. Abri a porta. Saí. Ouvi pela última vez “Buen Camino”. Olhei para trás. Avistei o símbolo do caminho na parede. Um azulejo azul com a concha amarela. Gratidão por tudo. Fechei a porta do albergue como quem fecha um livro. Acabou. Nó na garganta. Coração apertado. Olho lacrimejou. Caminhei 100 metros até o ponto de ônibus. Era muito perto. Queria caminhar mais. Foram meus últimos passos. Sensação boa e já uma nostalgia. Bateu saudade antecipada quando pensei que não andaria mais 20km por dia. No mínimo. Cheguei no ponto. Uma grande fila. Encontrei o querido casal Português. Conversamos. Rimos muito. O Luís é uma figura! O ônibus chegou. Coloquei a mochila no bagageiro. Entrei. Sentei. O ônibus começou a andar. Que sensação estranha. Olhei pela janela. Eu estava parada e a paisagem passava rapidamente por mim. Era ela que se movia. Rápido demais. Não dava para ver os detalhes. Sentir cheiro. Conhecer pessoas. Era um rascunho da realidade. O tempo é diferente no caminho. Aqui eu não fazia esforço algum. Estava parada. Tudo passava tão depressa. Antes era eu que caminhava. A paisagem era estática. Eu podia admirar. Eu controlava o ritmo. Fazia minhas escolhas. Parava quando queria. Comia quando sentia fome. Eu era livre. A vontade era a minha condutora. Agora me senti literalmente passageira. Alguém guiava meu caminho por mim. Prefiro andar a pé. Controlar meus passos. Seguir meu coração. Ouvir minha intuição. Bateu sono. Dormi.

Acordei já na estação de Santiago. Fui no guichê comprar uma passagem de ônibus para Lisboa. Queria chegar à tempo de comemorar o aniversário do meu irmão no dia seguinte (ele mora lá). Mas não tinha mais nenhuma passagem. Só para o próximo dia. Por alguns minutos, fiquei sem saber o que fazer e pensando em soluções e opções. O casal Português me ajudou. Eles me sugeriram pegar um trem até Vigo e de lá pegar outro para Nine. O trem para Vigo sairia em uma hora e chegava no destino um hora depois. Pertinho. Super rápido. Eu poderia passar o dia passeando e conhecendo a cidade de Vigo, pois o trem para Nine só sairia às 20:00. O horário de chegada em Nine era 21:18. A Carla se ofereceu para me buscar na estação e passar a noite na casa dela. Dessa forma, eu poderia descansar, lavar minha roupa, ter um lugar confortável para dormir e conhecer um pouquinho dr Guimarães na manhã seguinte.

Na hora do almoço, ela teria que levar o namorado em Porto e poderia me dar uma carona até lá. Em Porto, eu poderia pegar um trem para Lisboa. Pronto. Problema resolvido. Solução encontrada. Melhor impossível. Vou conhecer 3 lugares que não estavam nos meus planos e ainda terei uma estadia acolhedora. Vida de peregrino é assim. Você não programa muito. Deixa fluir e tudo dá certo no final. Adorei aprender isso durante o Caminho. Isso é viver o presente. É estar conectado com o universo. Aberto. Acreditar e confiar que a vida vai providenciar tudo que você precisar!

Peguei um mapa no centro de informação. Fui caminhando até a estação de trem. Ficava na outra ponta de Santiago. Decidi passar pela Catedral mais uma vez para me despedir. Chegando lá, reencontrei uma amiga do início da minha caminhada. Kelly. Uma inglesa. Ela salvou meu 3o dia encontrando um lugar para eu dormir. Já não a via fazia um mês! Não acreditei que pude dar um último abraço e agradecer. Ela havia acabado de chegar em Santiago. Estava emocionada. Chorando. Me pediu para tirar uma foto dela. Claro que tirei com todo prazer. Tiramos uma foto juntas também pra registrar o momento. Dei os parabéns pra ela. Perguntei pelo nosso amigo Jonathan. Canadense que me acompanhou por toda minha primeira semana. Sempre com um enorme sorriso e um astral de levantar qualquer um. Ela me disse que ele também havia acabado de chegar. Olhei em volta. Não consegui encontrar. Tentei ligar pra ele pra tentar lhe dar um último abraço antes de partir. Ele não atendeu. Por uma fração de segundos fiquei triste. Lamentei não ter conseguido me despedir. Mas resolvi pensar que era pra ser assim. No Caminho aprendi a praticar a “aceitação”. Tudo é conforme deve ser. Isso facilita um bocado o que não podemos controlar na vida. Traz alívio e paz. Desejei “Buen Camino” para Kelly.

Segui para a estação de Santiago. Cheguei faltando apenas 10 minutos para sair o trem. Comprei os tickets. Fui no banheiro. O trem chegou. Entrei. Relaxei. Deu tudo certo. Agradeci por tudo. Dei adeus à Santiago olhando pela janela. Eu havia conseguido. Estava feliz por ter realizado um sonho e ao mesmo tempo triste porque acabou. Mas o que vivi no Caminho continuaria dentro de mim. Serei peregrina para sempre. Refleti por uma hora. Lembrei de tudo que vivi até chegar aqui. Um turbilhão de pensamentos e sentimentos passaram pela minha cabeça e pelo meu coração. Eu estava emocionada.

O tempo passou rápido. A viagem foi curta. Cheguei ao meu destino. Estava calor. Vigo é uma cidade grande. Muitos carros. Buzina. Fumaça. Eu estava de volta ao mundo real. Foi uma sensação estranha. Me senti um pouco perdida. Procurei intuitivamente por sinais e por setas amarelas. Não tinha mais. Não ouvi nenhum “Buen Camino”. Ninguém deu um sorriso despretensioso. Não tinha amigos alí. Era a vida voltando para o “automático”. Bateu um vazio. Voltara a ser um ser humano comum por fora. Mas por dentro eu me sentia diferente. Eu não era mais a mesma. Eu era uma peregrina. Andei 900km. Atravessei um país inteiro de ponta a ponta a pé. Tenho força. Coragem. Bagagem. Histórias pra contar. Eu me sentia especial.

Andei de um lado para o outro até encontrar um mercado. Tinham muitas ladeiras. Prédios altos. Muita arquitetura. Pouca árvore. Muitas subidas e descidas. Já era Outono, mas fazia muito calor. Não tinha muita sombra. Achei um mercado. Comprei queijo e fiz alguns sanduíches com o pão que ainda tinha na mochila. Comi tudo. Estava com muita fome. Fui até um restaurante com um amigo do Caminho que estava comigo para ele almoçar. Molhei o rosto no banheiro e fiz um rabo de cavalo pra refrescar. Decidi dar uma volta pela orla. Parei perto do farol e sentei na mureta pra pegar um solzinho enquanto aguardava o horário do trem para Nine. O sol estava se pondo. O dia estava lindo. Chegou a hora de ir pra estação. Era grande e moderna. Fresquinha. Fui até a plataforma e peguei o trem. Quase chegando no meu destino, dois Portugueses atrás de mim, começaram a conversar comigo e contaram sobre o caminho português que acabaram de fazer. Disseram que é lindo. Perguntei sobre a experiência deles e contei sobre a minha. Nesse momento me deu vontade de fazer todas as rotas que existem para Santiago. Eu não queria que aquela magia acabasse. Queria viver eternamente naquela vibração.

Voltei a prestar atenção nas paradas e saltei na estação onde o casal português disse que me esperaria. A viagem de carro durou 30 minutos até Guimarães. Meu corpo estava se readaptando a andar em outro meio de locomoção que não fosse meus pés. Fiquei um pouco tonta e enjoada algumas vezes durante o percurso. Foi estranho. Eu estava achando tudo muito rápido. Em menos de 24h eu havia estado em cinco cidades e em dois países diferentes. Estava “fácil” se locomover. Tudo era muito depressa. O olhar apressado nos faz enxergar as coisas de forma superficial. Os detalhes passam desapercebidos. Eu olhei mais pro relógio nas últimas 24 horas do que nos últimos 34 dias. Passei a me preocupar em não me atrasar. Não estava com saudade disso. Não era mais eu que controlava meu tempo e meus passos. Eu era controlada por ele. Pelo tempo. Pelo horário dos transportes à minha volta. Sensação estranha. Voltei a ser coadjuvante da minha vida.

Enfim, chegamos na casa da Carla. Já era noite. Estava exausta. Tirei os sapatos na entrada como fazia nos albergues do Caminho. Virou um hábito. Ela me mostrou os aposentos da sua casa. Linda. Cheirosa. Arrumada. Energia boa. Fiquei encantada. Me levou até o quarto onde me hospedaria. Era maravilhoso. Tinha uma cama de casal enorme. Travesseiro super macio. Edredom aconchegante. A janela de vidro dava para uma vista incrível. Ela pegou uma toalha limpa pra mim e me levou até o banheiro. Me explicou como funcionava o chuveiro. Me emprestou shampoo e condicionador. Liguei a água quente e tomei um banho sem pressa. Pela primeira vez em 34 dias eu tinha um banheiro só pra mim. Compartilhar é bom, mas ter privacidade é um privilégio. Dei mais valor a ela. Já havia me esquecido como era. Sensação gostosa.
Agradeci. Me senti em um Hotel 5 estrelas. Coloquei a única roupa que eu tinha limpa e o restante botei na máquina de lavar. Nas últimas 24h a vida passou a ser mais “fácil”. Era estranho fazer menos esforço para ter o que eu precisava. Quando as coisas são difíceis, damos mais valor. Mais uma lição aprendida. Eu estava faminta. Sentamos na mesa pra comer. Só tinha coisa gostosa. Tudo que mais amo. Ela tem um paladar parecido com o meu. Pães. Queijos. Iogurtes. Grãos. Castanhas. Tudo que tínhamos direito. Parecia um banquete. Tratamento VIP.

Brindamos com uma taça de vinho e conversamos a noite toda. Compartilhamos histórias e dividimos nossas experiências do Caminho. Parecia que já éramos amigas de muitos anos. Carla tem uma energia leve. Um astral maravilhoso. Ela se interessa pelos mesmos assuntos que eu. Falamos a mesma linguagem. Sintonia gostosa. Nosso encontro não foi por acaso. Sentimos que havia um motivo maior por termos nos conhecido. Aprendemos muito uma com a outra. Foi uma noite especial. Eu estava profundamente grata. Não sabia como expressar tamanha gratidão por tanto carinho. O fato de eu ser tão bem recebida na casa de uma pessoa que eu havia conhecido há 3 dias, fazia eu acreditar que o mundo é bom. Me senti uma pessoa de sorte. Abençoada. Merecedora. Foi mais um presente de Deus. O Caminho ainda não havia acabado pra mim. Levantei. Agradeci por tudo mais uma vez. Sorri. Dei um sincero abraço de boa noite. Fui pro meu novo quarto. Me cobri naquele edredom maravilhoso e dormi. Dormi como um anjo.

Lição do dia: Existem pessoas boas. O mundo é bom!

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