Dia#18 | Caminho Francês

Dia#18
Distância: 33km
Tempo de caminhada: 8 horas
Clima: Sol
Temperatura: Mín: 10° / Máx: 24°
Saída: León
Chegada: Hospital de Órbigo
Data: 24/09/2017
Palavra do Dia: Let it go…

Acordei cedo. Me arrumei silenciosamente no quarto ainda escuro. Encontrei alguns amigos na porta do monastério. Combinamos de sair todos juntos. Seguimos adiante e encontramos outro grupo de amigos. Formamos um grupo grande. Saímos animados. Caminhei conversando com o Espanhol. Eram os últimos quilômetros que teríamos juntos. Quando atravessamos a cidade de León, chegou a hora de nos despedirmos. Ele havia decidido continuar sua rota pelo Caminho Primitivo. Eu estava triste por dentro. Mas feliz por tê-lo conhecido. Ele foi uma parte importante do meu caminho. Me ajudou. Me deu sua luva. Sua alegria. Seu sorriso. Seu olhar. Vinhos. Brindes. Encontros. Desencontros. Reencontros. Muita conversa. Excelente companhia. Sentirei saudades. Let it go… foi isso que vim aprender aqui. Desapego emocional. Tivemos uma forte conexão. Não foi fácil me despedir. Quase fui com ele. Foi um momento decisivo pra mim. Minha primeira grande lição. Era o Caminho me ensinando o que vim aprender aqui. Deixar ir. Lhe dei um abraço com os olhos cheios d’água e um guardanapo com uma mensagem. Ele fez uma piada e disse: “Hummm… pra limpar a boca, obrigado!” Bobo. Brincalhão. Disse que tinha algo escrito pra ele. Ele agradeceu, sorriu e colocou no bolso. Acenei e desejei “Buen Camino”. Seguimos nossas rotas. Olhei para trás uma vez e o perdi de vista no horizonte. Continuei caminhando com o restante do grupo. Estávamos com fome. Já havíamos andado alguns quilômetros tentando encontrar algum lugar aberto. Domingo quase nada abre por aqui. Avistamos um bar. Paramos. Pedi uma tortilha. Matei a fome. Conversamos um pouco. Nos alongamos. Seguimos. Andamos mais alguns quilômetros e paramos novamente. Mais uma tortilha. Essa era grande. Deliciosa. Matou a fome. Um amigo indiano que estava conosco “Mayuresh” comprou dois chocolates e dividiu igualmente entre todos que estavam presente. um pequeno pedaço pra cada um. Sobremesa. Bonito gesto. Generoso. Um amor de pessoa. Bom coração. Continuamos. Decidi enviar uma mensagem para minha mãe e meu amigo Mattia (Italiano) e Borisz (Húngaro) gravaram um áudio pra ela. Ela adorou! Ficou super feliz. Eu disse que estava em boa companhia e que estava tudo bem. Seguimos. Era um bonito dia de sol. Bem quente. Os últimos quilômetros foram cansativos. Mattia colocou música em sua pequena caixa de som para animar. Ele tem muita energia. É alegre. Alto-astral. Me lembra meu irmão. Cantamos em muitas Línguas. Inglês. Português. Espanhol. Italiano. Uma miscelânea só. Dançamos. Pulamos. Rimos. Nos divertimos muito. Caminhamos. Chegamos ao nosso destino. Lindo lugar. Vilarejo charmoso. Os italianos escolheram um albergue privado. Por algum motivo, eu quis procurar outro. O húngaro veio comigo. Chegamos cansados. Tinha vaga. Uma mulher falou em uma língua que eu não entendi. O húngaro sorriu. Era a Língua dele. Encontramos um albergue húngaro sem querer. Ele ficou tão feliz. Fiquei feliz por ele. As senhoras foram super gentis. Simpáticas. Pediram pra tirar foto com a gente. Guardamos de recordação. Nos colocaram em um quarto especial. Só para húngaros. Não sou húngara. Mas como sou amiga de um, fui acolhida também. Generosidade. Arrumei minhas coisas e fui tomar banho. Quando acabei, me dei conta de que havia esquecido minha roupa do lado de fora. Ouvi barulho de água no chuveiro ao lado. Perguntei se era homem ou mulher. Era uma canadense. Que bom! Pedi ajuda pra ela. Perguntei se podia pegar minha roupa quando acabasse seu banho. Ela disse que sim. Claro. Conversamos através das paredes. Experiência engraçada. Confiei apenas na voz dela. Gostosa essa sensação. Nossas vozes ficaram amigas. Ela acabou o banho. Pegou minha roupa. Levou pra mim. Me passou por cima da porta. Me ajudou. Agradeci. Me vesti. Saí. Lavei minha roupa. Tava um dia bem quente. Coloquei no varal pra secar. Saí para dar uma volta. Um senhor tocava uma música na praça. Não tinha ninguém. Só ele, eu e um amigo. De repente, uma senhora passou andando devagarosamente com sua bengala. O prédio antigo ao fundo. A música. O artista solitário. O vazio. O cenário era de filme. Me senti como se estivesse assistindo uma cena de Wood Allen. Gravei. Foi muito engraçado. Tive crise de riso. Meu amigo Italiano (Mattia) se aproximou. Mostrei o vídeo pra ele. Ele riu muito. O Senhor ficou alí tocando por horas. Demos uma volta pelo vilarejo. Comi um biscoito doce gostoso. Ele voltou pro albergue e eu procurei algum bar aberto para jantar meu prato favorito. Pedi tortilha e vinho. Vinho mais barato do caminho. A taça era €0,80. Tomei três. Brindei com um amigo. Conversamos muito. Ficou tarde. Esfriou. Voltei pro albergue. Deitei. A estampa do cobertor era de onça. Lembrei do Espanhol. Ele havia me contato alguns dias antes que no casamento de um grande amigo, ele foi com uma gravata de leopardo e fez um discurso vestido assim. Não acreditei. Ele me mostrou o vídeo e lembro que ri demais. Tirei uma foto. Mandei a foto pra ele. Rezei. Agradeci. Dormi.

Lição do Dia: É difícil deixar ir o que queremos deixar ficar…

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