Dia#34 | Caminho Francês

Dia#34
Distância: 29.7km
Tempo de caminhada: 8 horas
Clima: Sol
Temperatura: Mín: 10° / Máx: 24°
Saída: Múxia
Chegada: Finisterre
Data: 10/10/2017
Palavra do Dia: Recomeço

Acordei. Me arrumei. Comi uma banana e tomei um chá de hortelã pra esquentar. Cortesia do albergue. Um amigo me ofereceu uma napolitana de chocolate. Aceitei. Precisava de energia. Hoje a caminhada seria longa e o único lugar pra comer ficava a 15km de Múxia. Quase na metade do caminho. Saí do albergue. A hospitaleira (Rosza) estava na logo alí na frente, na porta de um ônibus fretado, se despedindo dos peregrinos que fizeram de Múxia seu destino final e agora voltavam para suas casas. Fui até ela e agradeci pela estadia e pela simpatia. Me deu um abraço carinhoso e um lindo sorriso. Sorri de volta. Lembrei da minha mãe quando se despedia de mim na porta do ônibus em alguma excursão da escola. Me senti uma criança feliz. Ela desejou “Buen Camino” e eu segui adiante. Estava escuro. A lua cheia iluminava meu caminho. O som das ondas me acompanhou por um bom tempo. O início da rota de hoje era à beira-mar. Havia chegado o último dia da minha caminhada. Eu estava feliz. Leve. Em paz. Coração cheio. Coloquei o ipod. Estava tocando “Cause girl you’re amazing just the way you are” (Bruno Mars). Só o instrumental. Me lembrei de um antigo amor. Ouvi essa frase dele uma vez. Em inglês mesmo. Foi desse amor que eu vim me desapegar aqui. Nada melhor do que ouvir essa música no início do meu último dia para essa grande “despedida”. Trilha sonora inspiradora para acompanhar o sol que nascia do meu lado esquerdo. Do mesmo lado do coração. Trazendo calor. Esquentando o meu corpo. Aquele mesmo calor que sentimos dentro do coração quando estamos cheios de Amor. O sol nascia atrás das árvores. A cor amarela iluminou todo o horizonte. Parecia que eu estava andando em chamas. Queimando tudo que já não me pertencia mais. Um tom rosado tomou conta do céu. Era o último nascer do sol que eu veria por aqui. Sentirei saudade desse espetáculo diário da natureza. Segui caminhando. Caminhei 15km ininterruptamente. Estava cheia de energia. A paisagem era linda. Estava fazendo um belíssimo dia de sol. Parei para pegar algumas maçãs em uma pequena macieira. Foi a primeira vez que comi uma maçã diretamente do pé. Tirada por mim. O cheiro era tão forte que parecia “apple pie” (torta de maçã). Mais a frente, passei por uma placa que dizia: “Yo hice el Camino de Santiago”. Eu fiz. Estava me sentindo tão feliz, forte, grande e realizada que tirei uma foto pra guardar de recordação. Segui. Mais a frente, avistei uma linda casinha de pedra com uma colcha de retalhos colorida pendurada na janela. Parecia uma casa de boneca. O gatinho preto, na frente da casa, com as 4 patinhas brancas parecia estar vestindo pequenas botinhas. Um banco de madeira, ao lado da porta, em volta de vasos de flores coloridos, deixavam a fachada encantada. Que delícia de  lugar. Dava até vontade de entrar e tomar um café. Mas não era um bar. Era a casa de alguém. Continuei meu caminho. Andei mais alguns quilômetros e avistei uma placa vermelha que dizia “STOP”. Me aproximei e vi que alguém escrevera com hidrocor preto duas palavras que mudavam o sentido da placa. “Don’t STOP believin” (não pare de acreditar). Amei. Acreditar SEMPRE. Esse é meu lema. Coloquei o ipod novamente. Tocou “Viva La Vida”. Perfeita para celebrar esse momento. Nunca me senti tão viva! Agradeci. Caminhei dançando. Mãos pro alto. Me senti livre. Muito bom. Um pouco mais a frente, avistei um bar. Era bem grande. Parei pra comer. Precisava de energia. Comi um croissant com queijo e uma napolitana de chocolate. Segui. Após alguns quilômetros, avistei uma pequena mesinha com frutas, biscoitos, sucos e café. Dei minha contribuição e comi mais um pouco. Tinha um biscoito doce delicioso. Tudo simples e gostoso. Havia uma pequena escada ao lado da mesa. Subi. Encontrei a dona do local na porta. Conversamos um pouco. Perguntei se podia usar seu banheiro. Ela permitiu. Agradeci. Me perguntou se eu queria carimbar minha credencial. Disse que sim. Claro! Era um bonito carimbo verde com o símbolo de um trevo de quatro folhas. Significava sorte. Achei simbólico para o fim do meu Caminho. Adorei. Queria levá-la comigo para o resto da minha Vida. Segui. Andei mais uns 10km no sol. O dia estava bem quente. O destino parecia não chegar, mas de repente, vi novamente o mar. Sorri. Contemplei essa paisagem por alguns segundos. Era de tirar o fôlego. O azul do céu se mesclava com o azul do mar. Era de ofuscar. Alguns metros depois, entrei em uma longa reta cercada por pinheiros dos dois lados. A sombra ajudou a refrescar. O barulho das ondas me fez ter vontade de mergulhar. Uma peregrina vinha na direção inversa. Me perguntou a quanto tempo ela estava de Múxia. Falei que ainda faltavam algumas horas de caminhada, mas que estava na direção certa. Desejei “Buen Camino” e segui. Andei mais um pouco. Vi uma placa escrito “Finisterra”. Finalmente estava chegando. Passei por uma igrejinha onde fiz o sinal da cruz e vi um cachorrinho “Poodle” que latia sem parar. Ele estava preso em uma corrente. Acho que queria sair dali para brincar. Alguns metros adiante vi a placa do albergue húngaro onde iria me hospedar. Ainda faltava um pouco. No caminho, passei por um mercado e aproveitei para comprar uma lasanha de legumes e dois wraps. Seria meu almoço e minha janta. A paisagem até o albergue era simplesmente deslumbrante. As montanhas atrás do mar eram a coisa mais linda do mundo. Dava vontade de ficar admirando pra sempre. Andei mais um pouco e encontrei meu albergue. A porta era estreita. Dava de frente para um escada de madeira. A hospitaleira pediu para eu deixar o tênis na lateral da escada. Me atendeu no primeiro andar. Sentei em uma mesa na sala que parecia ser sua própria casa. Me senti à vontade. Fiz o check-in. Ela me mostrou a cozinha. Era super equipada. Falou que eu podia usar o que quiser. Deixei minha compra na geladeira. Coloquei minhas coisas no quarto. Ficava no segundo andar. Hoje eu tinha um quarto só pra mim. Tirei algumas coisas da mochila. Deixei apenas o necessário para fazer a caminhada final até o ponto zero do Caminho. Desci as escadas. Comi os wraps que comprei em uma mesinha ao lado da cozinha. Depois de satisfeita, fui até o local onde emitem o certificado de conclusão do Caminho de Finisterra. Mostrei minha credencial toda carimbada comprovando que fiz todo o percurso e peguei mais um simbólico certificado que comprovava o fim da minha longa caminhada de 900km. Assinei um livro de registro onde todos os peregrinos colocam o seu nome, idade e o país de origem, tirei uma foto de recordação e fui andando até uma pequena praia próxima ao albergue. Era linda. Deserta. Só tinha eu, um amigo e mais uma pessoa. Uma praia só pra gente. Que delícia. Meu amigo foi correndo pro mar dar um mergulho. Filmei sem ele saber. Parecia uma criança na água. A alegria dele me contagiou. Não existe praia no País dele. Esse um momento especial pra ele. Ele tem poucas oportunidades de mergulhar na água salgada do mar. Eu nasci em Niterói. Rio de Janeiro. Cresci indo à praia. Moro apenas alguns minutos da praia mais linda da minha cidade. Itacoatiara. Meu pequeno paraíso. É tão normal pra mim. Nesse momento, dei mais valor ao que tenho. Andei até a beira do mar. Molhei os pés. Agradeci por tudo. Contemplei aquele momento. Depois lavei os pés no chuveiro da praia, sequei, coloquei a sandália e fui caminhando até o farol, ao lado do ponto zero do Caminho. Queria assistir o pôr-do-sol sentada nas pedras. Tradição de quem chega até aqui. Ficava à 3km da praia. Comecei a caminhar. Logo no início da subida, um senhor me abordou. Tinha barba branca. Usava um chapéu de palha. Seu nome era Pedro. Começou a conversar comigo. Simples. Sábio. Me deu um cartão com uma pomba desenhada à mão simbolizando a paz. A arte foi feita por ele. Falou sobre a paz mundial. Disse que a paz é o caminho. Falou muito também sobre amor. Perguntou se eu ficaria mais um dia aqui. Me convidou para almoçar na sua casa com sua esposa. Agradeci. Mas disse que ia embora de manhã cedo. Falou que fez o convite com pureza no coração. Disse que gosta de partilhar com os peregrinos e que ama incondicionalmente os seres humanos. Contou que sua esposa é psiquiatra. Ele bebia muito e ela o curou com seu amor. Disse que o amor cura tudo. Lágrimas caíram dos meus olhos. No último quilômetro do caminho, isso confirmava algo que vim buscar. “Love is the answer.” Lhe dei um abraço. Agradeci pelo cartão, pelo convite e pelas palavras. Segui meu Caminho. Emocionada. Coloquei o ipod. Queria música para acompanhar meus últimos passos. Momento de reflexão. Gratidão. Lembrei de todos os amigos que fiz aqui. De tudo que aprendi e senti. As histórias que compartilhei. Albergues por onde passei. Camas onde dormi. Banhos quentes que tomei. Tortillas que comi. Ombros nos quais chorei. Abraços que ganhei. Sorrisos que provoquei. Olhares sinceros que troquei. Ajudas que recebi. Limites que ultrapassei. Os sentidos que ficaram mais aguçados. Segui minha intuição. Encontros. Desencontros. Reencontros. Desapegos. Despedidas. Amor. Amizade. Medo. Tédio. Vitória. Força. Superação. Tombo. Perdão. Lágrimas. Sentimentos. Emoção. Surpresas. Gentilezas. Presentes. Aceitação. Dúvidas. Escolhas. Contemplação. Persistência. Insistência. Resiliência. Respeito. Comunhão. Fé em Deus. Em mim. No próximo. Aprendi a não deixar de acreditar. Voltei a confiar. Deixei ir…

Finalmente depois de muita reflexão e uma retrospectiva interna, cheguei no ponto zero do Caminho. Nem acreditei. Havia uma fila de peregrinos para tirar a tradicional foto do “fim”. Poses inusitadas. Engraçadas. Cada um faz o que vem na mente. Registrei o momento. Segui andando em direção ao farol. Passei por uma lojinha de “souveniers”. Vi algumas plaquinhas com alguns nomes e qual foi o primeiro que eu vi? “José”. Lembrei do meu amigo espanhol mais uma vez. Tirei uma foto pra mandar pra ele. Pensei em comprar e enviar pelo correio para ele ter uma recordação daqui já que não veio até Finisterra. Mas achei melhor não. A graça é estar aqui. Tenho certeza que um dia ele virá. Foi o Caminho me lembrando dele mais uma vez. O sol estava começando a se pôr. O céu estava ficando dourado. Sentei em uma grande pedra para contemplar aquele último momento com alguns amigos (Rúben, Borisz e Victor). Cada um no seu canto. Pensando na vida. Silêncio absoluto. Som apenas da natureza. Aquela calmaria infinita. Senti paz. A imensidão do horizonte parecia não ter fim. Por isso, aqui é chamado de Finisterra. É o fim da terra. Os antigos acreditavam que aqui era o fim do mundo. Por onde olhava, só tinha mar. Mais nada. E o sol ia descendo devagar. Como se tivesse dando adeus. Estava acabando minha Jornada. Momento único. Mágico. Abri um vinho e brindei com os amigos. Naquele momento, ouvi o som de uma gaita. Era um senhor que tocava atrás de mim. Me arrepiei. Me emocionei. Esse som me faz lembrar meu avô. Ele costumava tocar quando eu era pequena. Faleceu quando eu tinha apenas 5 anos. É uma das poucas lembranças que tenho dele. Senti ele perto de mim. Olhei pra trás e sorri. O senhor acenou pra mim. Não poderia haver uma trilha sonora melhor para aquele momento. Me senti na cena final de um filme. Mas a atriz principal era eu mesma. Naquele momento eu estava me despedindo de mim. De uma antiga Paola. E estava renascendo uma nova Paola. Entendi porque a tradição de queimar alguma coisa que nos acompanhou durante todo o caminho quando chegamos ao fim. É pra simbolizar a morte do “velho” e o nascimento do novo. Como a história da Fênix. Ela renasce das cinzas. Queimei minha faixinha de cabelo branca. Minha marca registrada no caminho. Usei quase todos os dias para esquentar minha orelha. Meus amigos até me reconheciam de longe por ela. Tinha um valor sentimental por ela. Apego emocional. Era hora de colocar em prática o que vim aprender aqui e deixar ela “ir” também. Aproveitei o pequeno fogo que um amigo meu fez quando queimou seu diário e deixei ela queimar junto. É simbólico, mas esse gesto nos faz dar “adeus” para o que ficou pra trás e nos faz olhar pra cima e abrir os braços para o que está a nossa frente. Ela virou pó. O sol foi sumindo no horizonte até virar uma linha vermelha fininha. Era ele se despedindo também. Para amanhã brilhar em um novo dia. E o espetáculo da vida começaria outra vez. Tudo seria “igual”, mas daqui pra frente tudo também seria diferente. Porque eu já não era mais a mesma. E o sol se foi. Fiquei alí por mais alguns minutos contemplando a paleta de cores do fim da tarde. Foi desde o dourado até o tom rosado. Aplaudi o pôr-do-sol. Assim que ele tocou na água e sumiu na imensidão do mar. Aqueles aplausos foram pra mim também. Pois por mais difícil que eu pudesse imaginar, eu havia chegado até aqui. Foi difícil levantar e ir embora. Não queria me despedir. Mas era hora de partir. Levantei. Agradeci por tudo e segui. Andando em direção ao farol, conheci os últimos 3 peregrinos da minha jornada. Eram franceses. Bonitos. Simpáticos. Tiramos algumas fotos e me despedi. Desejei o último “Buen Camino”. E fui andando por mais 3km de volta ao albergue. Tranquila. Serena. Feliz. Realizada. Os passos eram lentos. Estava frio. Ventava. Acelerei para chegar mais depressa. Cheguei faminta. Fui na cozinha. Fiz uma lasanha. Minha última janta. Comi saboreando intensamente cada garfada. Fiquei satisfeita. Lavei minha louça. Tomei um banho quente. Coloquei uma roupa confortável. Deitei. Agradeci. Dormi. Fim? Não. Apenas um novo começo…

Aprendizado do dia: Em todo fim existe um recomeço.

Quer continuar acompanhando minha jornada? Cadastre-se aqui e caminhe comigo!